“A educação e a cultura salvaram a minha vida e com elas transformo a vida de crianças e adultos”, contou Maria Aline Soares, em entrevista exclusiva para a Voz da Diversidade.
Ex-faxineira, Maria Aline, 43 anos, superou barreiras e se tornou escritora de literatura infantil negra.
Ela tem quatro obras publicadas, duas delas traduzidas para o inglês – “A História do Nome Abayomi” e “A Amiga Estadunidense da Abayomi”, obra feita em parceria com a norte-americana PhD Marla Goins, doutora pela Universidade Estadual de Ohio e especialista em cultura negra.
“Comecei a escrever em 2019, desde que a escola de samba Mangueira colocou na avenida ‘A história que a História não conta’, com africanos e indígenas como protagonistas da construção do nosso país”, disse.
Ela menciona uma fala marcante da rainha Evelyn Bastos “Todos nós negros temos que escrever nossas histórias, pois os livros didáticos só falam que somos descendentes de escravos, mas somos descendentes de rainhas e reis que foram escravizados”.
“Para publicar o livro ‘A História do Nome Abayomi’ parcelei no cartão e fui. É totalmente um produto independente”, conta.
Mulher negra e periférica, Aline mora no Parque Regina, zona sul de São Paulo. Também é ex-passista e sambista da escola de samba VaiVai. É mãe solo de dois jovens, um deles com Síndrome de Down.
Ela se formou em pedagogia pela Universidade Zumbi dos Palmares e, além de escritora, também se tornou professora de educação infantil e educação antirracista. Ganhou o Troféu Periferia Brasil, na categoria Mulheres que Inspiram 2023, e também levou o Troféu Raça Negra 2024.
“Só consegui me formar graças ao trabalho da escola de samba VaiVai. Ela tem uma parceria com a universidade Zumbi dos Palmares e assim me graduei em Pedagogia”, disse.
Primeiro contato com a educação
“Eu era faxineira em uma escola. Esse foi o meu primeiro ‘contato com educação’. Eu estava limpando a sala de aula e fui sugerir uma atividade no Dia das Crianças e a professora pediu para eu calar a boca, porque eu não tinha pedagogia. A diretora me defendeu e disse que as pessoas da limpeza e da cozinha também eram corpo docente e precisavam ser respeitadas”, contou.
Foi após esse episódio que Aline decidiu fazer Pedagogia e desde então fez Enem e Prouni. “Após me formar em Pedagogia me tornei professora e me formei em 2018. E agora estou buscando o meu mestrado”.
“Só conheci a educação por meio da escola de samba VaiVai. Foi lá que eu tive a oportunidade de estudar na Universidade Zumbi dos Palmares, que tem parceria com a escola”.
História das obras
O livro “A História do Nome Abayomi” é uma homenagem a artesã Ana Martins que na década de 80 fazia as bonecas para as crianças da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. “Eu já fazia as bonecas Abayomi nas feiras que eu ia como empreendedora. E essa foi a minha homenagem a ela, porque sempre fui muito fã. O livro também tem o objetivo de mostrar o significado dos nomes para as crianças. Infelizmente a população não sabe o significado do nome por conta da colonização. Quando chegavam [negros] aqui [no Brasil] tinham que esquecer seu nome, sua cultura e era tudo registrado pelos seus donos”.
Em relação ao livro “A Amiga Estadunidense da Abayomi”, escrito em parceria com a doutora Marla Goins, o foco foi falar sobre a semelhança da cultura brasileira com a norte-americana. “Criamos o o projeto diáspora africana pelo mundo e escrevemos sobre a cultura dos africanos fora da África”. A publicação concorreu ao Prêmio Jabuti 2023. “Fizemos apresentações sobre a obra na Universidade de Ohio, Chicago, San Diego. É vendido em inglês na Europa também”.
Como conheceu a doutora norte-americana Marla Goins
“Fui tema do doutorado dela em 2019. Ela falava sobre mulheres ativistas do Brasil. Eu fazia meu ativismo mesmo como auxiliar de limpeza. Eu apadrinhava as crianças com os meus amigos da escola de samba da VaiVai no Dia das Crianças e no Natal. Ela contava também sobre meu trabalho com bonecas de pano”, contou. E foi após essa aproximação que Maria Aline teve ideia de escrever o livro e convidou Marla.
Planos para o futuro
“As crianças podem aprender muito com a literatura negra. Quero fazer uma coletânea de 30 livros. Só consegui lançar quatro”.
Outro objetivo de Maria Aline Soares é transformar as suas aulas com foco em diversidade em projeto de Mestrado e Doutorado. Além de uma educação afrocentrada, ela também trabalhou diversas culturas de seus alunos em sala de aula: “Onde eu dava aula, na periferia da zona sul de São Paulo, tinham alunos indígenas, bolivianos, africanos e uma aluna do Afeganistão. Eu falava sobre a cultura de cada um deles para que os outros alunos conhecessem e respeitassem a história cultural desses dos colegas”.
Recado para mulheres negras
“Temos de 11 a 12 gerações para chegar até a nossa linhagem. Somos 4094 ancestrais para chegarmos até aqui. Muitos sofreram e se sacrificaram para chegarmos onde chegamos. Sempre falo aos nossos ancestrais que se não fossem eles, não estaríamos nessa luta. E que seja uma luta coletiva. Juntos somos mais fortes. Posso partir hoje, mas as gerações futuras sempre vão lembrar de mim. Estarei viva por conta das minhas ações e por ter a empatia de olhar para o outro”, afirmou Maria Aline Soares para inspirar outras mulheres negras.

Mulher maravilhosa, de raça e luta!!!
Necessária!!!