
Depois de mais de 30 anos sendo acusado injustamente por um crime que não cometeu, o jornalista Carlos Dias, 66 anos, lança o livro “Quem lê tanta notícia”, no qual relata o quanto uma reportagem arruinou a sua carreira. O lançamento aconteceu nesta última segunda-feira, 9 de março, na Livraria da Travessa, no Shopping Iguatemi, em São Paulo (SP).
Era 1994. Carlos Dias era editor de Cidades do hoje extinto Jornal da Tarde. Ele foi preso, acusado de tentativa de homicídio contra uma prostituta. Três jornais da mesma empresa jornalística, a Folha de S.Paulo, publicaram a notícia da prisão. “Apesar de mais de duas horas de entrevista, tudo o que publicaram foi que eu negava a acusação. Fui preso de madrugada, em casa, sem flagrante e sem mandado”, contou em entrevista exclusiva à Voz da Diversidade.
“O Ministério Público e o juiz concluíram que eu havia sido vítima de uma armação. A imprensa ignorou. Só que eu sou do ramo. Eles sabem que erraram e sabem que eu sei disso. Mas nunca admitiram e nunca vão admitir que a vítima era eu”, afirma.
O resultado para Carlos Dias, que acumula 45 anos de carreira e hoje atua na edição internacional do Valor Econômico, foi ver sua reputação manchada por muitos anos. “Durante quatro anos não consegui sequer um freelance. As portas das principais empresas de comunicação se fecharam para mim. Algumas nunca mais se abriram. A minha carreira foi arruinada pelo que hoje se chama de fake news, de fofoca”, conta.
Além deste capítulo difícil de sua carreira, Dias também relata episódios vividos nas redações e faz uma análise sobre os conflitos, contradições e custos humanos da profissão. “Ética é a principal baliza para o jornalista não se perder. E ele precisa de humildade para não achar que é maior que a notícia nem menor que as suas fontes”, diz.
Antes da notícia que viria a arruinar sua carreira, ele conta que foi o primeiro a dedicar uma página inteira do jornal à questão racial no Brasil. “No dia seguinte, me telefonaram para me dar os parabéns pela façanha de convencer a conservadora família dona do Estadão a tratar do tema. Bobagem. Nunca me impediram nem torceram o nariz. Acharam a ideia boa. Simples assim. Faltava alguém que enxergasse a importância da data [Dia da Consciência Negra] e colocasse a reportagem para trabalhar.”
Sobre o papel do “novo jornalista” nos tempos atuais, Dias afirma: “Eu acho que o papel do jornalista não mudou e não pode mudar. A tecnologia parece ter transformado o papel do profissional de imprensa, mas, na verdade, essa função apenas se intensificou. Humildade e ética, por exemplo, são valores eternos”.
